15/03/2021 às 10h19min - Atualizada em 15/03/2021 às 10h19min

Pandemia impõe semana santa de silêncio em cidades históricas

Período que costuma significar aquecimento no turismo será de ruas e igrejas vazias em locais como Ouro Preto e Congonhas

Estado de Minas
Cidades turísticas mineiras cancelam as cerimônias presenciais da semana santa, assistem à nova fuga de visitantes e reforçam os protocolos contra a COVID-19, enquanto a tonalidade roxa, tão típica da quaresma, simbolizando a Paixão de Cristo, cobre agora não apenas os altares das igrejas como também cinco regiões no mapa do estado em que há avanço assustador da doença.
 
Mas o sinal é vermelho em muitas cidades de passado colonial, a exemplo de Ouro Preto, na Região Central, pioneira no país no reconhecimento como patrimônio da humanidade (1980). O município está com 100% dos leitos ocupados, sofre impactos na mão de obra voltada para o turismo e adota medidas extremas, entre elas o toque de recolher, para evitar aglomeração, colapso na saúde e maior contaminação pelo novo coronavírus.
 
De acordo com a Prefeitura de Ouro Preto, o hospital de campanha, montado no ano passado, está funcinando com 10 leitos de UTI prontos, dos quais apenas quatro em atividade por limitação de capacidade operacional.
 
No interior, as cores mais dramáticas do Minas Consciente, plano do governo estadual para controle da pandemia, vão tirar de cena as procissões, encenações ao ar livre e outras celebrações da semana santa (de 28 deste mês a 4 de abril), que chegarão ao público apenas no modo virtual. “Estamos em situação crítica durante o período que atrai grande número de turistas a Minas. Há, além dos sermões, das encenações e dos ritos seculares, a perda de renda, especialmente nos setores de hospedagem, restaurantes, lazer e na logística dos eventos”, afirma o presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais, o prefeito de Itapecerica, Wirley Rodrigues Reis.
 
Preocupadas com o impacto nas 30 cidades que formam a entidade, e para minimizar os impactos no turismo regional, as cidades históricas de Minas fazem campanha pedindo aos turistas que não cancelem, mas remarquem suas visitas, pois muitas igrejas e museus já estão com entradas restritas. “Em um cenário otimista, temos a expectativa de que a pandemia seja controlada a partir do segundo semestre”, avalia Wirley.
 
Na onda vermelha, Mariana, primeira vila, cidade, diocese e capital de Minas, também na Região Central, adota medidas severas como o toque de recolher (das 20h às 5h, todos os dias). Enquanto isso, cria lei municipal de incentivo à cultura e ao turismo. Já em Congonhas, conhecida como Cidade dos Profetas, o não uso de máscara ou desrespeito ao decreto municipal de restrição por bares, restaurantes e similares implica multa que pode chegar a R$ 9.240.
 
Embora com as cerimônias públicas da semana santa canceladas, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e Tiradentes, no Campo das Vertentes, se mantêm na onda amarela, mas redobram os cuidados para não acender a luz vermelha do perigo.
 
Com um dos centros históricos mais próximos de Belo Horizonte, Sabará adotou na semana passada medidas mais restritivas. O Comitê Sabarense de Enfrentamento à COVID-19 determinou toque de recolher entre as 20h e as 5h.
 
Estão proibidos circulação de pessoas sem uso de máscaras em qualquer espaço público ou de uso coletivo, ainda que privado; eventos públicos ou privados; venda de bebida alcoólica para consumo no local, sendo que mercados, supermercados e similares não podem comercializar a bebida gelada; e consumo de bebidas alcoólicas em espaços públicos.
 
Moeda virtual
 
Ouro Preto, onde desde o ano passado houve queda do turismo devido à pandemia, adotou mais restrições diante do esgotamento de leitos(foto: Rodrigo Câmara/Prefeitura de Ouro Preto/Divulgação)
Ouro Preto, onde desde o ano passado houve queda do turismo devido à pandemia, adotou mais restrições diante do esgotamento de leitos
(foto: Rodrigo Câmara/Prefeitura de Ouro Preto/Divulgação)
As noites desta semana foram bem diferentes do habitual em Ouro Preto, ex-capital do estado e sempre animada pelo grande número de moradores e turistas nas ruas e ladeiras históricas. Por decreto do prefeito Angelo Oswaldo, que vigora pelos próximos 15 dias, com possibilidade de prorrogação, entrou em vigor o toque de recolher que impede a circulação de pessoas das 20h às 5h (de segunda a sexta-feira) e das 17h às 5h (sábado e domingo).
 
Também estão suspensos os alvarás para festas. “A situação está muito próxima de entrar na onda roxa, então preferimos agir antes que o pior aconteça”, afirma o secretário municipal de Governo, Felipe Guerra.
 
A cidade reduziu a ocupação do transporte público em 50%, impôs restrições no comércio e fiscalização das medidas, já que Ouro Preto recebe 15 mil alunos do ensino superior, que continuam tendo aulas on-line, e abriga 180 repúblicas de estudantes.
 
Segundo Guerra, os impactos no turismo são maiores na geração de empregos, e não na receita pública, uma vez que 75% da arrecadação do município vem da atividade minerária. O turismo responde por 8%.
 
“Mas ficamos preocupados demais, tanto que foi criada pela prefeitura, em parceria com a Associação Comercial de Ouro Preto, uma moeda virtual, com lançamento em breve.” A iniciativa estará disponível inicialmente aos moradores, depois aos turistas. “Fizemos uma pesquisa e verificamos que a população faz compras em Belo Horizonte, Mariana e Itabirito. Com isso, queremos valorizar o comércio local”, afirma.
 
Debandada
 
Congonhas e Mariana, na Região Central, assistem ao esvaziamento dos pontos de grande visitação. Na primeira, o Santuário Basílica Senhor Bom Jesus de Matosinhos, também patrimônio da humanidade, está fechado, e são poucos os visitantes contemplando os 12 profetas esculpidos por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814). O Museu de Congonhas e o Parque das Cachoeiras se encontram abertos desde o dia 23.
 
O secretário municipal de Cultura, Turismo e Patrimônio de Mariana, Cristiano Casimiro, explica que todos os eventos públicos estão cancelados. Para ajudar artistas das áreas de música, teatro e dança e pessoas que perderam o emprego na área de turismo, a lei municipal vai estender a mão com aporte financeiro. A contrapartida será a obrigatoriedade de o interessado fazer um curso de capacitação profissional.
 
Tiradentes e Diamantina sentem a fuga de turistas
 
Famosa em todo país pelos festivais de cinema e de gastronomia e por outros eventos que chegam a reunir mais de 30 mil pessoas nos fins de semana, a charmosa Tiradentes, na região do Campo das Vertentes, também amarga os prejuízos com a crise sanitária do novo coronavírus.
 
“Tivemos uma queda de 60% na ocupação dos hotéis”, diz o secretário municipal de Turismo, Christian Silveira. Como as celebrações da semana santa também foram cancelados, foi criado um circuito gastronômico nos restaurantes, com pratos típicos da época. “O momento é de muita cautela”, afirma secretário.
 
Também reconhecida como patrimônio cultural da humanidade, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, está numa situação menos traumática do que outras cidades turísticas mineiras, ressalta a secretária municipal de Saúde, Liliany Carvalho: “Estamos na onda amarela, com ocupação dos leitos inferior a 50%”. Especialmente para COVID-19, há 20 leitos de terapia intensiva, dos quais sete ocupados, e 30 leitos clínicos, com 14 ocupados.
 
Desde o início da pandemia, segundo a secretária de Saúde, foi feito o teste PCR para o coronavírus, permitindo ações urgentes e de gestão da crise. O trabalho ocorreu em parceria da Prefeitura de Diamantina com a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.
 
A secretária de Cultura, Márcia Betânia Oliveira Horta, lamenta as perdas no setor de turismo. “Infelizmente, estamos vivendo este período tão difícil. Mas temos o ‘turismo solitário’: uma pessoa passeando, às vezes um casal”, conta. Muito pouco para uma cidade que fez e lançou em live, no ano passado, uma detalhada programação de festas, vesperatas e outros eventos.
 
O calvário de cada uma
 
Confira a situação no circuito das cidades históricas
 
» 1) Ouro Preto, na Região Central
» Restrições: toque de recolher, suspensão de alvará para festas públicas
» Onda vermelha, com 100% de leitos ocupados
» Casos confirmados: 2,921
» Óbitos: 55
» Novidade: criação de moeda virtual para fomentar a economia local
 
» 2) Mariana, na Região Central
» Restrições: toque de recolher,  cancelamento de todos os eventos públicos
» Onda vermelha. A cidade não dispõe de leitos de UTI, e os casos mais graves são encaminhados a outras cidades
» Casos confirmados: 5.339
» Óbitos: 41
» Novidade: criação de lei municipal com aporte financeiro para incentivar a cultura e o turismo
 
» 3) Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte
» Restrições: toque de recolher entre as 20h e as 5h, proibida a circulação de pessoas sem uso de máscaras em qualquer espaço público ou de uso coletivo, ainda que privado; e suspensos eventos públicos ou privados
» Onda vermelha. Estão proibidos ainda a venda de bebida alcoólica para consumo no local, sendo que mercados, super- mercados e similares não podem comercializar a bebida gelada; e consumo de bebidas alcoólicas em espaços públicos
» Casos confirmados: 3.056
» Óbitos: 103
 
» 4) Congonhas, na Região Central
» Restrições: novo decreto estipula medidas rígidas, especialmente para evitar aglomerações. Uso obrigatório de máscaras, distanciamento social (3 metros) e restrição de público para visita ao Museu de Congonhas e ao Parque das Cachoeiras
» Onda vermelha: ocupação dos leitos de UTI atingiu 100%
» Casos confirmados: 4.403
» Óbitos: 37
» Novidade: o não uso de máscaras e o desrespeito ao recente decreto municipal por bares, restaurantes e similares podem gerar multa de até R$ 9.240
 
» 5) Tiradentes, no Campo das Vertentes
» Restrições: a situação não é crítica como em outras cidades turísticas, mas a cidade amarga queda de 60% na ocupação dos hotéis e pousadas
» Onda amarela, com suspensão das tradicionais cerimônias da semana santa em locais públicos
» Casos confirmados: 236
» Óbitos: 3
» Novidade: circuito gastronômico nos restaurantes, na semana santa, com pratos tradicionais da época
 
» 6) Diamantina, no Vale do Jequitinhonha
» Restrições: eventos públicos como a vesperata e as cerimônias da semana santa foram cancelados
» A cidade já esteve na onda vermelha e agora está na amarela, com taxas mais baixas de contaminação pelo novo coronavírus
» Casos confirmados: 1.126
» Óbitos: 11

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