01/10/2021 às 08h41min - Atualizada em 01/10/2021 às 08h41min

30 DE SETEMBRO RECORDA UMA PROFISSÃO CENTENÁRIA EM EXTINÇÃO NO BRASIL

Essa atividade existe há pelo menos 150 anos no Brasil e começou com as pessoas que saiam pelas ruas transmitindo as últimas notícias que aconteciam na cidade. Isso numa época em que sequer havia a profissão de jornalista como é hoje. De lá pra cá, uma coisa não mudou entre os jornaleiros: continuam sendo testemunhas do cotidiano, seja pela leitura das páginas de jornais, nas conversas dos clientes ou pelo olhar sempre atento que capta o dia-a-dia da sociedade. Diversos já instalaram suas bancas em Caratinga, uma cidade que é notória pelo interesse do povo em notícias. Basta observar a quantidade de veículos de imprensa que aqui existem. Mas, assim como acontece em todo o Brasil, os jornaleiros vem sendo cada vez mais escassos por aqui. 

Atualmente, a banca mais antiga ainda em atividade é a do senhor Josemar Fialho, que há 51 anos herdou do pai a profissão. Só na praça Getúlio Vargas ele passou por cinco pontos até se estabelecer no local onde está hoje.  

Mas ele reconhece que hoje as pessoas se informam mais pelo celular. Até mesmo a televisão perdeu um pouco da sua hegemonia. Diariamente, Josemar tem vendido uma média de dez jornais e algumas raras vezes aparece um comprador de revistas. O jornaleiro não deixa de ver também uma decadência na imprensa nacional, que pode também estar impactando no desinteresse dos leitores.  

Seguindo nossa caminhada para a praça Cesário Alvim, a banca do Jorge é outro ponto que foi, ao longo dos anos, perdendo clientes e a tradicional prosa da tarde entre os amigos. Até mesmo as crianças que costumavam frequentar para comprar figurinhas colecionáveis também sumiram. Ele já foi funcionário do Instituto Mineiro de Agropecuária, mas há 35 anos resolveu embarcar na venda de jornais e revistas. Ao contrário daquela época, hoje Jorge não consegue ver um futuro para a profissão. 

Em meio à crise, os jornaleiros foram buscando alternativas que alavancassem a renda, já que o carro-chefe já não tem atraído tantos interesses. Até mesmo a legislação das bancas de jornal foi atualizada. A partir da década de 90, os Estados passaram a permitir a venda de salgados, balas, sorvetes, artigos de armarinho e artesanato nos espaços. Essa última opção tem sido a alternativa do Jorge. Já o Josemar, por exemplo, tem encontrado mais compradores de jornais antigos que usam as páginas para pegar fezes do cachorro ou mesmo embalar objetos para mudanças. No mesmo ponto desde 1984, o Ronaldo foi mais além e, praticamente, transformou sua banca que fica da avenida Moacyr de Mattos em uma floricultura.  

Na família do Ronaldo temos uma situação um tanto quanto atípica hoje em dia. Seu irmão também é jornaleiro. A banca do Rony é, provavelmente, a única delas que ainda atraia um grupo de pessoas, geralmente mais velhas, para conversarem. A localidade também ajuda, é claro. O espaço fica ao lado do Café Íris, um tradicional ponto de encontro em Caratinga. Muitos inclusive se perguntam: “Por que todos os políticos que visitam a cidade sempre marcam presença no café?!” Talvez nunca saibamos, mas uma pista é que aquele mesmo local já foi a sede da Rádio Caratinga. Sem falar na proximidade da antiga rodoviária. Essa e outras histórias da cidade tem sido, constantemente, revisitadas pelo escritor Sylvio Abreu, um caratinguense que não abandona as visitas diárias ao jornaleiro.   

Essa necessidade ficou expressa ainda mais nesses tempos por conta da pandemia do novo Coronavírus. O que, inclusive, para todos os entrevistados, foi mais um prego no caixão das bancas de jornais, já que muitas editoras fecharam e as próprias pessoas também passaram a evitar os encontros pessoais. Entre opiniões pessimistas e otimistas, é evidente que o declínio desta atividade centenária mostra como a sociedade está, cada vez mais, mudando a maneira de se comunicar. 



 
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