11/10/2021 às 10h42min - Atualizada em 11/10/2021 às 10h42min

PRATICAMENTE DESAPARECIDOS DA CIDADE, BALAIEIROS CONTAM SUA VIVÊNCIA EM CARATINGA

Hoje se tornou moda as pessoas comprarem bolsas ou sacolas reutilizáveis para evitar usar aquelas de plástico. Em capitais, muitos supermercados, inclusive, estão parando de disponibilizar esse tipo de embalagem. Mas, antigamente, isso era muito normal. As pessoas tinham o hábito de ir às compras levando um balaio. Esse objeto artesanal, que tem vários tamanhos e funções, é produzido pelos balaieiros. 

A tradição de trabalhar trançando bambus, tabocas, cipós e folhas vem dos indígenas brasileiros e recebeu influência de outras culturas, principalmente dos africanos. Durante o período colonial, os balaios foram muito utilizados pelos tropeiros para transportar mercadorias por longas distâncias. Enquanto isso as peneiras já eram utilizadas tanto na separação de alimentos quanto nos garimpos.

Além dessa produção estar diretamente ligada ao desenvolvimento do país, essa atividade também tem relação com um motim popular ocorrido em meados do século XIX, no Maranhão. A revolta da Balaiada levou esse nome por conta de um líder dos escravos e trabalhadores que era artesão. Pode-se dizer que até meados da década de 90 essa foi uma atividade movimentada, principalmente na zona rural, já que os cestos eram muito utilizados na colheita.

Caratinga abriga ainda hoje um fazedor de balaios, que desenvolveu muito cedo a habilidade de trabalhar o material com sua família. A atividade lhe rendeu o apelido de ‘Milton Balaieiro’. Aos 70 anos ele conta que passou por outras profissões até retornar ao ofício que aprendeu com 6 anos de idade.

No bairro Nossa Senhora Aparecida, encontramos um outro antigo artesão de Caratinga, mas que há cerca de 30 anos abandonou a atividade. Mesmo assim, lembra muito bem da época em que os balaios faziam parte do cotidiano local. Assim como Milton, o Gerson Balaieiro também aprendeu o ofício com a família, ainda muito novo. 

Aos 66 anos, Gerson Brum trocou as taquaras pelas garrafas de plástico. Essa consciência sustentável, de alguma forma, sempre esteve presente nos trabalhos do artesão. Tanto que ele ainda guarda um balaio com grande apreço e faz questão de defender a durabilidade do material. Envolvido num projeto que transforma as PETS em vassouras, ele já planeja retomar a produção de balaios, para aproveitar ainda mais o material reciclável.

Do outro lado da cidade, no bairro Doutor Eduardo, o Milton nos mostra como trançar utilizando o bambu verde. Há 60 anos morando no mesmo local, ele continua fazendo o artesanato na porta de casa. O balaieiro explica que antes de começar é preciso preparar o material. Primeiro se destala a estrutura da planta, ou seja, removendo os nós que ligam as fibras do caule. Assim o broto fica mais liso para ser manipulado. Depois, Milton racha em metades e começa a lascar a peça até chegar nas varetas que são melhores para utilizar. Isso é feito trabalhando tanto no miolo - a parte branca, quanto no vidro - a parte externa e verde. Com décadas de experiência, o olho treinado guia rapidamente as mãos calejadas que tanto sofrem com as farpas do bambu. Pra ele, isso é uma ciência que precisa ser seguida com atenção.

Antigamente ele buscava os bambus na mata, já hoje, o material é comprado e entregue direto em casa. Devoto do artesanato, ele lembra muito bem de episódios engraçados da época quando ainda era criança. 

Embora seja uma história do cotidiano, o relato ilustra muito bem uma constatação que o balaieiro faz da evolução desta atividade. Se por um lado, naquela época haviam muito artesãos, o produto, por outro lado, não era tão valorizado. Uma peça que leva dois dias para ficar pronta, por exemplo, custa cerca de R$ 80,00. A demanda ainda é razoável. Só no início deste mês, Milton já vendeu 19 peças.

Além de balaios, com o material é possível fazer cestos, peneiras, puçás, esteiras e até vasos. Mesmo com a mudança de costumes, alguns desses utensílios podem voltar a ser valorizados, seja por questões ecológicas, ou mesmo pelo apreço que leva a produção manual. A questão, na verdade, é a escassez de profissionais. Hoje são raras as crianças, que como antigamente, querem aprender a ciência do artesanato.



 
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