18/10/2021 às 09h31min - Atualizada em 18/10/2021 às 09h31min

RELOJOEIROS DE CARATINGA SOBREVIVEM EM MEIO AS EVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS DO ACESSÓRIO

Antigamente, pelo menos cada relojoaria contava com um profissional capacitado para dar manutenção no acessório. Hoje, eles são raros. Em Caratinga, os velhos de guerra estão deixando em aberto um posto que não está sendo preenchido pelos mais jovens. Conheça um pouco mais sobre a atividade do relojoeiro, na nossa terceira parte da série de reportagens sobre profissões em extinção. 

O relojoeiro é considerado um artesão que fabrica ou repara relógios. A profissão é uma das mais antigas do mundo e surgiu na Inglaterra do século XVII, quando os aparelhos mecânicos passaram a ser difundidos entre as residências luxuosas. Naquela época, surgiu também uma das mais importantes tradições desta atividade: o treinamento guiado por um mestre. Os aprendizes deviam passar por sete anos de prática antes de desenvolver o primeiro aparelho. Embora a profissão tenha sido submetida a diversas mudanças, assim como o próprio relógio, o ofício continua sendo passado do mestre para o iniciante, ou do pai para o filho. É o caso do Darly Júnior, relojoeiro caratinguense há mais de 40 anos em atividade. 

Até a idade média, o tempo era percebido como uma situação natural. A manhã sucedia a noite, da mesma forma que o verão chegava depois da primavera. Era uma contagem de períodos longos, e a passagem das horas estava longe de ser precisada – até porque, não havia necessidade para isso. Mesmo com o relógio de sol, de água e de areia (mais conhecido como ampulheta), a orientação da mudança de tempo não tinha uma referência padronizada. Isso só veio a surgir, de fato, com os primeiros aparelhos mecânicos no século XIII. Naquele mesmo período, começaram a ser instalados os relógios públicos, no centro das cidades europeias e nas igrejas. Por muito tempo, o badalar dos sinos foi o principal medidor da passagem do tempo.

Até que em 1500, na Alemanha, o relógio de bolso permitiu que cada um pudesse saber as horas sem depender de alguma referência externa. Somente no final do século XIX, é que foi criado o acessório de pulso. No Brasil, esse modelo foi popularizado por Santos Dumont e até hoje é o tipo de relógio mais vendido. Eles são divididos em três categorias, por ordem de desenvolvimento: os automáticos (que não usam baterias e acumulam energia pela movimentação do pulso); os de quartzo (requer bateria e conta com cristais do mineral que aumenta a precisão da marcação) e, por fim, os digitais (movidos a base de um circuito eletrônico).

José Fernandes aprendeu o ofício em São Paulo, na empresa Dimas de Melo Pimenta, uma das mais tradicionais no país e responsável pela criação do primeiro relógio eletrônico em território nacional. Ele é natural de Dom Corrêa, distrito de Manhuaçu, mas foi em terras paulistas que teve as primeiras experiências profissionais. Hoje, a família segue a mesma trajetória. Um irmão tem uma loja em Inhapim, outro em Engenheiro Caldas, e a filha ajuda na loja em Caratinga. Em 37 anos de experiência, ele afirma que em três meses qualquer pessoa consegue aprender o básico da profissão. Mas é preciso esforço e, sobretudo, interesse. O que José acredita estar em falta nos dias de hoje. 

Carlos José Ribeiro, mais conhecido como Juninho, sempre trabalhou em Caratinga e começou na profissão com 16 anos e mesmo depois de três décadas, continua com o mesmo amor pelo ofício. O relojoeiro confessa que a vista já está bem cansada pelo constante uso da lente de aumento, mas o aprendizado diário que essas máquinas proporcionam, motivam a continuar na jornada.  

Além disso, destaca-se o desaparecimento das casas de fornitura, ou seja, os locais que vendiam as peças necessárias para a manutenção dos relógios. Esses mesmos empreendimentos, também costumavam ofertar cursos para os profissionais. Parte dessa mudança se deve pela própria indústria, que vem substituindo a engenhoca de engrenagens e molas, por circuitos eletrônicos. 

É importante lembrar que o relógio se tornou um objeto popular, justamente, no período que antecede as revoluções industriais. Ou seja, foi esse instrumento que permitiu as mudanças nas relações de trabalho, passando a ser minuciosamente dividas e com o tempo contado. Ao contrário da geração dos sinos, cada um se tornou responsável pelo seu próprio cronograma. Hoje, os smartwatches (relógios inteligentes) revolucionaram a indústria. Um acessório que foi criado, inicialmente, apenas para indicar as horas, hoje se tornou um instrumento de comunicação, que vai desde a reprodução de músicas até o monitoramento da saúde. 

Em Caratinga, os relojoeiros acreditam que há algumas décadas a profissão segue um declínio. Os mais antigos já deixaram a atividade, e os mais novos estão ficando antigos, e sozinhos. Por outro lado, a demanda ainda sustenta esses três profissionais que transformaram muitos clientes em amigos. Eles defendem que, independente da evolução tecnológica, o relógio continua no braço do povo. Não por seu aspecto instrumental de marcação do tempo, mas por ser uma joia ainda muito valorizada pela sociedade. 


 
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