28/10/2021 às 10h32min - Atualizada em 28/10/2021 às 10h32min

​SAPATEIRO: UM LEGADO NO PASSADO QUE ESTÁ PERDENDO ESPAÇO NO PRESENTE

No último domingo, dia 25 de outubro, foi comemorado o dia do sapateiro e hoje chegou a vez de homenagear aqueles que ainda vivem desta atividade.
 
A data de 25 de outubro coincide com o dia de festa do Santos Crispim e Crispiniano. Antes de serem canonizados pela igreja católica, há 1.700 anos atrás, os irmãos gêmeos foram sapateiros e por isso são considerados os padroeiros dessa profissão. Os dois nasceram de uma família nobre do Império Romano, o que nos mostra como a atividade milenar já foi muito valorizada.

Aliás, se voltarmos algumas décadas na história de Caratinga, veremos que essa tradição já lotou a cidade de oficinas. Ainda hoje, alguns representantes do ofício preservam o legado da família. Esta loja, fica na rua Deputado Dênio Moreira de Carvalho, no Santa Cruz e é a segunda casa do João Domingos. Foi fundada em 1975 por seu pai, que transmitiu todos os conhecimentos para que o filho pudesse seguir na profissão.
 
Além dele, todos os outros irmãos atuaram na profissão, inclusive, dois deles ainda possuem uma oficina que fica na rua Princesa Isabel. Esse legado passado de pai para filho é uma história que se repete entre os sapateiros da cidade. O Fernando, além de herdar a profissão, ainda carrega o apelido do pai – um homem que nasceu em Jequié, no interior da Bahia e se mudou para Caratinga na década de 1960. Desde os oito anos, o Baiano (filho, no caso), conserta e fabrica calçados. A técnica apurada em mais de 40 anos, entretanto, foi se adaptado às mudanças do mercado.
 
O João abriu sua primeira oficina quando ainda tinha 16 anos, no final da década de 1980. Hoje, com 56 anos, lembra como a profissão era valorizada em Caratinga e, principalmente, que a cidade abrigava lojas que produziam e vendiam a matéria prima.
 
As oficinas ainda guardam antigas máquinas de costura, equipamentos para lixar e os instrumentos básicos, que são o martelo e o pé de ferro. Mas embora seja chamado de sapateiro, esse profissional costuma trabalhar com muitas outras peças além dos calçados. Eles também consertam mochilas, malas, bolsas e até bolas de futebol. O João, por exemplo, até fabrica cintos sobre medida. Pra dar conta disso tudo, é preciso um dia longo de trabalho.
 
Na loja do Fernando, ele conta que prevalecem os calçados femininos. Segundo o sapateiro isso tem a ver com a própria evolução das peças que mudaram de material.
 
Mesmo com a diminuição das lojas, e as mudanças no mercado, a demanda continua em alta. Um dos motivos, de acordo com os sapateiros, é que o calçado vai se tornando mais confortável com o passar do tempo. E então, muitas pessoas optam por preservar o sapato que mais se adequa ao formato do pé.
 
A clientela é de todas as classes sociais e, inclusive, seguem fiéis aos sapateiros. João confessa que a profissão é rentável, mas mesmo assim está sumindo do mercado, porque os jovens não tem se interessado em seguir a atividade. Entre todas essas histórias de profissões antigas, na maior parte das vezes, o filho aprende com o pai. E, portanto, para o João, quando a lei se tornou mais rigorosa com relação ao trabalho infantil, esse legado passou a enfraquecer.
 
O Baiano disse que até incentiva os filhos a ajudarem na oficina, mas reconhece que os jovens, atualmente, focam mais nos estudos, o que muitas vezes, no passado, nem era uma opção. Aos 48 anos ele acredita que a profissão corre riscos reais de ser extinta em Caratinga. Embora o futuro do sapateiro seja incerto, os profissionais que ainda resistem no mercado, guardam um orgulho grande de ter criado a família a partir do esforço neste ofício tão nobre.


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